04/11/2016 às 08h52

Culto ao medo

Quando o hábito fica impregnado de tanto ser cometido, ele deixa de ser possibilidade e passa a ser destino. Se espera que sempre aconteça da mesma forma. Com a violência não é diferente, assim como, com a impunidade.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
Não se combate violência com violência.
Levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública demonstra que 57% dos brasileiros concordam com a frase “Bandido Bom e Bandido Morto”. O que isso significa? 

Os brasileiros vivem, como muitos países na América Latina, com o que considero ser o culto a violência. Estabelecemos o medo como regra e alimentamos a ideia de que violência se combate com violência.

Há quem afirme que a frase apoiada pela maioria da população é uma demonstração de descrédito no aparato de segurança, na Justiça. Considero que a relação de violência na sociedade brasileira é histórica. A decepção sempre fica a cargo de quem teve e perdeu, neste país, a injustiça é ação alimentada ao longo do tempo.

Quando o hábito fica impregnado de tanto ser cometido, ele deixa de ser possibilidade e passa a ser destino. Se espera que sempre aconteça da mesma forma. Com a violência não é diferente, assim como, com a impunidade.

A prática constante contamina todos os lados, agressores e agredidos passam a ver suas possibilidades direcionadas para uma única ação, a violência. Matar ou morrer. Por isso, que é simpática a agressão, que cultua a agressividade, é considerada o perfil certo para viver neste ambiente.

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Quando o hábito fica impregnado de tanto ser cometido, ele deixa de ser possibilidade e passa a ser destino. Se espera que sempre aconteça da mesma forma. Com a violência não é diferente, assim como, com a impunidade.”

Gilson Aguiar

Não descarto e nem nego que há uma insegurança. Na mesma pesquisa, a maioria dos brasileiros, 76%, tem medo de morrerem assassinados, mais de 80%, de serem agredidos. Porém, os números de mortes que atingem o cidadão comum são menores. Os assassinatos estão ligados ao tráfico de drogas e ambientes de risco.

Quando o medo se instala como um culto, a fé de que ocorrerá, só há uma saída, agredir antes de ser agredido. Não esperar para sofrer a violência, antecipar antes que ela aconteça. Não por acaso, muitos ingressam nos aparatos de segurança pública para satisfazerem sua vontade de agredir. O pré-requisito para combater a agressão e gostar do perfil do agressor.

Diante deste culto, a violência não vai sessar tão sedo e será alimentada pelo medo. Também estaremos sempre dispostos a gostar de personagens agressores e considera-los que são a melhor arma para conter a agressão. É contra isso que temos que lutar, a violência não é o melhor caminho. Nem, tão pouco, a impunidade. 

Temos que estimular a racionalidade, temos que conhecer melhor o ambiente onde a violência se propaga. Precisamos ser informados da proporção da violência que se pratica e onde ela ocorre. Podemos estar convivendo com o sintoma de uma doença que desconhecemos e, por isso, não se resolve com medidas paliativas como matar o bandido.

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