01/11/2016 às 07h54

A lógica da velha república

Mas é nas disputas entre paulistas e mineiras que ainda se concentra parte considerável do jogo de poder no país. Nas eleições municipais que se mede o efeito dos líderes em sua região de apoio. Nele se dá uma dimensão da força eleitoral e da capacidade de acordos para se organizar a estratégia para daqui dois anos.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
A lógica do "Café com Leite" continua.
O ninho tucano está mais uma vez em “guerra”. O motivo é simples. O PSDB, um dos principais partidos do país se fortaleceu razoavelmente com a crise política e a quase falência do Partido dos Trabalhadores (PT). O partido de Lula agoniza enquanto os tucanos veem suas bases e alianças crescerem. As eleições municipais são uma demonstração clara da consolidação tucana.

Mas por de trás da vitória tucana e da disputa entre Alckimin, Serra e Aécio para ver quem será o candidato a presidente do PSDB temos uma lógica histórica, a manutenção do eixo de poder sobre o Poder Executivo na Região Sudeste. Ainda são paulistas em mineiros, principalmente, que determinam a vida pública brasileira.

A afirmação vem, em primeiro momento, do grande reduto eleitoral que o Sudeste ainda detém no país. Lá se concentra a maioria da população brasileira. Mais que isso, e importante, a economia fundada no eixo cafeeiro e sua herança gerou o ambiente para a industrialização. O café se foi, mas a política de concentração e controle do capital nacional é essencialmente paulista e mineira.

Na lógica das disputas na Primeira República (1889 a 1930), as lideranças municipais se agrupam em torno de uma liderança estadual e federal. Os acordos são feitos na busca de ocupar os cargos no Legislativo e Executivo nas estâncias de poder. Quanto mais agrupamentos aliados surgem, mais se consolida o grupo político determinante. Da mesma forma que as lideranças regionais tinham um papel importante na política da velha república, ainda hoje os caciques políticos e sua cadeia de favores tem.



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Na lógica das disputas na Primeira República (1889 a 1930), as lideranças municipais se agrupam em torno de um líder, é a escada para chegar ao poder.”

Gilson Aguiar

A vitória dos tucanos é incontestável nas eleições municipais deste ano. Com 803 prefeitos eleitos e mais de 34 milhões de eleitores conquistados, o PSDB terá à disposição, em 2017, um orçamento administrado de R$ 160 bilhões de reais. Uma base política e orçamentária vital para sonhar com o retorno ao Palácio do Planalto. Mas os tucanos não se bicam.

Na luta por ampliar suas bases de poder Alckimin saiu na frente e conquistou um grande número de municípios em São Paulo, alguns deles redutos tradicionais petistas, como São Bernardo. No sentido oposto, Aécio perde a disputa por Belo Horizonte, com a derrota do tucano João Leite, e não consegue fortalecer sua imagem de liderança nacional no principal município de seu reduto mineiro.

Enquanto Aécio e Alckimin se digladiam diretamente dentro do ninho tucano, José Serra, ministro das Relações Exteriores, incorpora a pasta e assiste ao ambiente de fora, o qual, por enquanto, não lhe é favorável. O PMDB pode adotar Serra como alternativa para fazer frente a possibilidade de permanecer no poder com uma liderança importada.

Mas é nas disputas entre paulistas e mineiras que ainda se concentra parte considerável do jogo de poder no país. Nas eleições municipais que se mede o efeito dos líderes em sua região de apoio. Nele se dá uma dimensão da força eleitoral e da capacidade de acordos para se organizar a estratégia para daqui dois anos. 
Até aqui, Alckimin deu um passo para a rampa do Planalto e fechou uma base eleitoral essencial para chegar ao poder federal. Mas o jogo ainda está em andamento. Os tucanos têm uma tradição de ter cacique demais e índios de menos. E na política, liderança sem chão é tombo na certa.

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