24/03/2016 às 16h50

Política: entre o ideal e o real

Seria possível instalar uma ordem perfeita. Uma busca de harmonia entre as diferenças que compõe a sociedade? Aristóteles considera que não. Estamos fadados a ver decompor governos de obas intenções pela mediocridade dos interesses pessoais. O que nos daria um bom começo para discutirmos o que estamos vivendo no país hoje e durante boa parte de sua história.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
O passado nos ensina a crise política no presente.
Quando analisamos os clássicos, Sócrates, Platão, Aristóteles ou Políbio, sobre suas defesas políticas, percebemos o quanto a “polis”, a cidade grega, foi o ambiente de análise da busca de um governo ideal ou da degeneração das formas de governo. Contudo, vale lembrar que Políbio é o único que não se encaixe nesta análise, mesmo tendo nascido na Grécia, viveu em Roma. Políbio considerava o governo republicano romano ideal.

Os pensadores clássicos colocam em evidência as contradições do que chamam de bom e mal governo. Hora estabelecem critérios para definir as virtudes de determinadas formas de composição do Estado, Platão; hora colocam as contradições do governo ideal, Aristóteles. 

Mas é em Sócrates, o pai da análise política, que nunca se preocupou em definir uma forma ideal de governo, que está a busca de entender a conduta humana na vida pública, o papel do cidadão. Desafiando a ordem, ele instiga a dúvida. O que está por de trás da aparência das leis e da ordem estabelecida.

Mesmo em Platão, quando falamos do “Mito da Caverna”, há a ideia de um governo dos sábios. A única forma que ele considera de um governo justo, aquele que fosse comandado pelos pensadores. O governo da razão que mais a frente, no século XIX, os positivistas teriam sua defesa nas teses de Comte. 

Seria possível instalar uma ordem perfeita. Uma busca de harmonia entre as diferenças que compõe a sociedade? Aristóteles considera que não. Estamos fadados a ver decompor governos de obas intenções pela mediocridade dos interesses pessoais. O que nos daria um bom começo para discutirmos o que estamos vivendo no país hoje e durante boa parte de sua história. 

Um pouco sobre o que estamos vivendo

Na história brasileira há um grande número de acontecimentos que demonstram a degeneração. Sempre que os regimes representativos se instalam, há uma relação direta com o interesse uma minoria que estabelece um poder próprio. 

Se resgatarmos a trajetória dos regimes de governo no país perceberemos que a monarquia se estabeleceu mais como tirania do que representatividade ou a busca do monarca em preservar o bem comum, principalmente quando falamos do Primeiro Reinado, com Dom Pedro I. No segundo monarca (Dom Pedro II) temos uma melhora significativa na qualidade do governante e nas formas como atuou na vida pública. Porém, tropeçou na própria aristocracia que o manteve. A república não foi outra coisa, uma proclamação do poder de alguns sobre todos.

Durante o regime republicano, 1889 até hoje, os golpismos demonstraram a saída de crises pela batuta dos “salvadores da pátria”. Os messiânicos rondam o poder dos países latino-americanos. Getúlio foi nossa maior expressão dos discursos populistas sustentando na demagogia da defesa popular e na ação de benefício a alguns. 

Vale uma reflexão mais profunda sobre os desdobramentos da política no Brasil lembrando os clássicos. Nesta crise atual, os mitos, os ídolos políticos continuam exercendo uma forte influência sobre a vida pública. Este é o temor que recai sobre a jovem democracia, a procura de um tirano que supere sua crise e enterre de vez a liberdade.

 
 

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