14/09/2014 às 00h29

Os nossos alemães

Muitos consideraram que o germanismo poderia “tomar o brasil”. A indolência do brasileiro poderia abrir uma lacuna para a penetração dos europeus, dos alemães em especial.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
O germanismo, as marcas da passado no presente
O “germanismo” foi por muito tempo um dos meus objetos de pesquisa. Durante três anos me debrucei sobre documentos de imigração que remontavam um período que vai do II Reinado a I República (1870 a 1920). A ocupação do Sul do Brasil por colônias alemãs na busca de preencher o vazio demográfico entre a então Província de São Paulo e a do Rio Grande do Sul. A fronteira disputada com os países vizinhos da Região do Prata. 

Uma destas áreas de ocupação é a Colônia do Dona Francisca (1848), uma homenagem a irmã de D. Pedro II. Casada com o Príncipe de Joinville, terras ao Sul passaram a ser dotes da princesa brasileira. Famílias migraram para a Serra, reproduziram aqui, no Brasil, uma Alemanha. Tentaram segurar com as mãos, produzindo a cultura, a memória identificadora. Deram um sentido a si mesmo e, por consequência da vida, da distância e do tempo, se afastaram da “terra-pátria”. Aqui nasceu uma nova Alemanha.

Muitos consideraram que o germanismo poderia “tomar o brasil”. A indolência do brasileiro poderia abrir uma lacuna para a penetração dos europeus, dos alemães em especial. Segundo José Veríssimo, ministro da República, “mais preparados e dispostos que os nacionais”. Um sentimento de temor e admiração instalado diante da identificação clara da presença do outro que, aos poucos, foi se transformando em uma parte do nosso mosaico nacional, cheio de diferenças únicas.

Hoje, em mais uma palestra, agora em São Bento do Sul, Santa Catarina, uma cidade nascida do desdobramento da Colônia Francisca, vejo um dos espaços que me inspirou para a produção de minha dissertação de mestrado. “Germânicos e Germanismo: a imigração alemã no Sul do Brasil”, com este título li documentos e debate o que sempre me intrigou na adolescência e juventude, esta “Europa congelada nos trópicos”.

Nesta declaração de um pesquisador, professor e viajante, deixo aqui a lembrança de todos que me fizeram aprender sobre o quanto o encontro é o responsável pela obra humana que constitui este país. Ele nunca poderá se separar, não deve. Seria deixar em pedaços o que a história escreveu por muitas mãos vindas dos mais diferentes lugares.

 
 

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