publicado em 13/08/2014 às 09h22
e atualizado em 13/08/2014 às 09h26

As crianças cresceram

O ato infantil de desejar, ter e não entender a complexa rede de produção da vida, gera comportamentos preocupantes. Os motores de boa parte da crise atual.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
Adulto infantil

Adulto infantil

Sociedade de Consumo
Tenho trabalhado com meus alunos este mês a sociedade de consumo e sua “ambientação”. Resultado de uma produção mundial que integra uma gama de unidades com aspectos e funções diferentes na chamada “fábrica mundo”. Os bens e serviços consumidos se desprende simbolicamente de sua função. Por isso, segundo Jean Baudrillard, a lógica do objeto tem vida própria.

A principal questão abordada nesta temática é a “pedagogia do consumo”. A relação entre a forma como os objetos de consumo se dispõe ao ser humano são elaboradas de forma magistral por um grande número de áreas de conhecimento que tem como principal função estimular a aquisição. Desejar é o sentimento mais intenso dentro dos seres que vivem a procura de um significado para a vida. 

O marketing, a publicidade, o designer, a arquitetura são algumas das áreas focadas na ambientação para o consumo. A cor, a luz, o cheiro, o som e o paladar estão sendo trabalhados intensamente. Conhecer o ser humano e lhe implantar desejos aguçando seus sentidos é a profissão de pessoas empenhadas em entender os impulsos e retrabalhar a lógica. O instinto deve falar mais alto que a razão. 

Este desejo estimulado por todos os lados se satisfaz com bens gerados por uma cadeia de produção que esconde relações desumanas. Dos brinquedos aos smartphones há uma condição de produção desconhecida. Ela pode ter dentro de sua organização exploração de trabalhadores em condições análogas a escravidão. Contudo, não é assim que o objeto se apresenta.

Há uma distância entre o que sentimos e as relações que a constituíram. Esta apresentação dos bens se dá em ambientes atraentes, carreados de simbolismo. Voltados a atender ao ser humano que simplifica a lógica de viver e justifica de forma infantil, imediata, a vontade de ter. Não por acaso, nossa simplicidade de relacionar o mundo se traduz em mensagens prontas. Perigosos slogans de propagandas que nos dão a sensação de sapiência.

O ato infantil de desejar, ter e não entender a complexa rede de produção da vida, gera comportamentos preocupantes. Os motores de boa parte da crise atual. Os excessos de consumo e seus efeitos sobre a mente humana. Carros e acidentes; bebidas alcoólicas e dependências; drogas e violência. 

Para combater esta sequência de atos preocupantes, compactuamos com o mundo da criança, implantamos as “leis infantis”. Elas não vão abordar as principais causas das ações perigosas, apenas vão colocar proibições, afastar as “crianças adultas” do perigo. Colocar os bares a determinada distância das instituições de ensino, gerar lei que proíbam o uso de celulares em sala de aula, distribuir o preservativo no carnaval são algumas destas medidas, cada vez mais comuns e denunciadoras das crianças que cresceram.

 
 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS