09/03/2014 às 20h06

A fábrica de sonhos

Meu avô sempre olhava as mãos dos pretendentes a se casarem com suas filhas. Para ele, um pré-requisito importante para a felicidade de uma família.

Gilson Aguiar - contato@gilsonaguiar.com.br
Trabalhadora chinesa

Trabalhadora chinesa

Os fabricantes de sonhos
Não se pode negar que a produção mundial tem seu preço. Muito cara para seres humanos em países que transformaram seu avanço econômico numa escravidão em larga escala. As condições de produção mundial na China, por exemplo, tem trabalhadores fazendo uma jornada de mais de 20 horas por dia. 14 a 16 horas não são capazes de garantir uma remuneração, uma sobrevivência digna ao trabalhador. A hora extra é uma busca do mínimo.

Porém, há um elemento importante a ser pensado. O que é a dignidade em relação ao trabalho? Aceitar as condições de uma jornada e entende-la como intensa, não é algo comum a todos. Os chineses compreende sua jornada como exaustiva? As relações de trabalho podem ser consideradas violentas? O número de habitantes que a China tem pode ajudar a explicar a aceitação do ambiente de trabalho, considerado insalubre?

As questões são complexas e merecem considerações. A primeira é de que o conceito sobre o trabalho e seu significado vai além da particularidade do que ele pode nos dar, há um sentido coletivo do trabalho. Há dignidade no que se faz? O reconhecimento do trabalho com uma condição importante para o sentido da vida foi construído ao longo do tempo. Meu avô sempre olhava as mãos dos pretendentes a se casarem com suas filhas. Para ele, um pré-requisito importante para a felicidade de uma família. Nós não temos este critério como um categoria social. Ser trabalhador não é um dos melhores instrumentos de sedução.

Os chineses constrói suas relações dentro do ambiente de trabalho, identificam-se com ele. Será lá, na produção que encontraram a parceira ou o parceiro. Nos cafezais, nos canaviais, nos campos de algodão se encontraram muitos nas nossas histórias agrárias. Hoje, o campo de encontro é outro. O encanto de quem se associa a objetos de desejo e parece ser um complemento deste mundo de símbolos e produtos está nos shoppings, boates, bares, restaurantes, festas de grandes eventos e nos hipermercados. Nossos relacionamentos começam em campos de sonhos, não em plantações de algodão. Isto deve dizer muito sobre eles, sobre as intenções que nos unem.

Talvez, para os chineses, o trabalho é o que há como meio de viver em sociedade. Não existe um outro lado. A que se considerar que o estado, dito socialista, controla suas vidas. Impede a liberdade de informação. Colabora para viverem dentro de um ambiente focado no mundo das fábricas. Porém, não podemos esquecer que há outros chineses lá fora, na administrações das empresas, no comando dos negócios, nos bancos das escolas. Há um futuro para alguns, não para todos.

Se pensarmos nas condições que geram os nossos produtos de desejo, se analisarmos como nos encantamos com bens produzidos em condições desumanas, temos a contradição entre o prazer de usufruir das deliciais e o ambiente duro que os gera. A satisfação de suor, sangue e dor.  Não há solução imediata para esta contradição. Não há milagres. Apenas um olhar mais atento. Há a compreensão mais profunda que gera em nós um olhar atendo a procura de uma saída, construída lenta e solidamente ao longo dos dias.

A questão que me vem à mente é se os trabalhadores chineses, em suas longas jornadas na fabricação de smartphones, tablets, brinquedos e tantos outros produtos de nossos sonhos, vivem em um ambiente que os fazem mais reais e humanos do que nós? Uma questão difícil de responder.

 
 

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